- VI -



Em que primavera encontraste o Vale dos Deuses?
Em que primavera sorriste pela primeira vez?
Em que campos floridos pudeste andar confiante?
Sê então um retrato de cor,
A simples beleza a encantar.
O Vale Dourado que nunca esqueceste,
É dele que hoje te puseste a lembrar?
Em que canto escondido querem que cante?
Nos campos floridos te puseste a cantar?
Brilha cor, aquarela da vida.
Julga descente poder esperar?
Atenta para as flores, elas irão guiar...
O caminho do Vale retorna a encontrar.

"A"



Consciência, sentimento, um desejo reprimido, uma alma que veio a este mundo de forma diferente, para mudar a vida das pessoas com as quais têm contato, ou apenas nós mesmos, uma amostra de como somos volúveis?

O personagem principal do livro Todo dia (que se autodenomina “A”), escrito por David Levithan, acorda todos os dias em um corpo diferente, com a mesma idade que a sua, tendo acesso às memórias da outra pessoa, mas mantendo a própria consciência, podendo tomar decisões.

Habitando os mais variados corpos de adolescentes com 16 anos, “A” consegue nos mostrar como é viver um dia da vida de outra pessoa. O exemplo mais literal do “se colocar no lugar do outro”. Não vou resenhar a obra e nem tentar compreender a mensagem que o autor quis passar aos leitores, não é uma interpretação de texto.

Pensei em consciência, sentimento.

Mais ou menos na metade da história cogitei que o personagem expressasse os desejos reprimidos destes jovens. No dia da “invasão” eles fugiam de suas rotinas, faziam o que, no recôndito de suas mentes, sentiam vontade de fazer. Pode ser que seja isso mesmo, há tantas vontades sendo reprimidas, tantos “eus” escondidos por medo do julgamento que, se fosse possível, muitas pessoas gostariam de ser, pelo menos por um dia, elas mesmas com outra forma de pensar, com uma liberdade diferente. Ou um corpo capaz de ir além das barreiras que o dia-a-dia vai impondo.

Considero a possibilidade de “A” existir, como um Ser realizador de desejos, um Anjo investido de poder de mudança, um empurrãozinho do Destino ou um Bagunçador (não sei se essa palavra existe, mas gostei dela) de cabeças. Você e eu podemos ter tido um dia que parece em branco ou um borrão que lembramos apenas como um déjà vu.

Ou então, o personagem reflete como o ser humano é mutável em muitas das suas ideias e ações, de como algo, que até então era inviolável, pode ser descartado ao despertar pela manhã. Esse fator humano amedronta, mas também abre um mundo de possibilidades.

Leiam o livro, recomendo. É sempre bom analisar as perspectivas. É ainda mais importante se colocar no lugar do outro.

“A” tem muito para ensinar, é um personagem adorável. Deve ser porque ele reconhece as diferenças entre as pessoas, e sabe respeitá-las.



- V -


Ficar em casa. 
Ficar abraçado. 
Ficar conversando. 
Ficar lendo. 
Ficar em silêncio. 
Ficar assistindo. 
Ficar pensando. 
Não adianta apenas ir dormir, 
É necessário ficar dormindo. 
Não apenas ir viajar, 
Mas ficar feliz. 
Ficar observando. 
Ficar ouvindo. 
Ficar amando. 
Ficar cantando. 
Ficar escrevendo. 
Ficar.

Filosofia de rua

Imagem meramente ilustrativa
Fonte: http://pardevaso.com/ideias-para-o-pacote-de-presente/
Adorei, vale a pena conferir 👆
Há pouco menos de dois meses comprei um produto da China, via internet. No dia em que ele chegou, voltei para casa pensando em como algo vindo de tão longe, de uma cultura bem diferente, parou aqui, em uma cidadezinha que quase ninguém sabe que existe. Por quantas mãos meu pacote passou sem falar nos germes e quantas pessoas trabalharam, quem sabe em um ritmo frenético, para que meu pedido fosse atendido com êxito. Pensei em tudo isso.

Eu, que sou uma admiradora de outras culturas, me senti mais incluída recebendo um produto de tão longe, mesmo eles nem sabendo que eu existo. Quer dizer, eles sabem, meu nome estava no destinatário, mas aposto que eles não ficaram pensando, como eu, em quem iria receber. 

A teia que nos liga é mais intrincada do que podemos imaginar, nem temos muita consciência do nosso papel no efeito borboleta. Para que meu pacote chegasse intacto aqui, será que alguém lá na China teve um dia complicado? Espero que não, mas é uma possibilidade. 

Até o pacotinho viajou de avião e eu não. De fato, não estou interessada, mas pensei nisso também.

Filosofia de chuveiro


Uma situação bem comum nos tempos da escola é passar pelo constrangimento da escolha de times, nas aulas de educação física. Quem nunca passou por isso? Os dois melhores alunos de determinada modalidade ficavam um de cada lado montando sua seleção. Escolhe, escolhe, escolhe... Particularmente, eu sabia que seria uma das últimas, quando não era a última, com os dois torcendo abertamente internamente para que eu não fizesse parte do seu time. Muito bem, eu nunca me importei muito com isso, detestava educação física e tenho trauma até hoje dos ginásios de esportes. Enfim, eu aguardava pacientemente para ser escolhida e depois ia “jogar” (lê-se: correr de um lado para o outro do campo). 

Lembro-me de uma apresentação de dança, alusiva a alguma data comemorativa, onde os meninos foram enfileirados em frente à classe, enquanto as meninas ficaram sentadas para serem escolhidas pelos meninos. Hã? Como assim? É... Assim mesmo: o menino que estava em pé na frente da classe, dizia o nome da menina com a qual gostaria de dançar na apresentação. Confesso que isso me deixou ansiosa na época, não por medo de não ser escolhida, mas por algo que me pareceu errado naquilo tudo, mesmo eu tendo pouca idade (não lembro em qual série foi, exatamente). Pensei: - Nossa, vai demorar pra chamarem meu nome, isso se alguém chamar - tanto é que estava tão desligada que nem ouvi quando me chamaram (um pouco antes do que eu havia imaginado). O fato é que, eu, na infância, já conhecia as preferências, não dos meninos, mas da sociedade: comunicativas, divertidas, sociáveis... Agora você pode estar pensando que eu cresci e me tornei uma pessoa frustrada e estou escrevendo sobre isso e desqualificando boas características que as pessoas têm. Não é isso. Ser sociável é bom, mas não é tudo e, principalmente, não é a única maneira de viver. Seria importante que essa visão fosse aceita. (E olha, nem vou entrar na questão sexista da história, fica para uma próxima conversa, ou para os comentários). 

Eu sou uma das primeiras a ser escolhida, pois sou “melhor” em jogos de equipe. Eu sou uma das primeiras a ser escolhida porque me “destaco” perante as demais. Perceberam como isso é estranho? Perceberam que, certas “escolhas”, principalmente dentro de uma escola, soam de forma segregatória? Ou, não é nada disso e minha filosofia de chuveiro é completamente absurda e eu sou uma maluca? 

Em minha defesa, deixei a cereja do bolo para o final (acho que a cereja do bolo vai sempre no final, né?). Não gostaria de dar nome ao evento, para não pontuar demais o ocorrido e permitir que as pessoas liguem os fatos com datas, nomes e afins, porém, em um momento importante da minha vida escolar (lê-se: formatura do terceiro ano... ops, escapuliu!), durante a cerimônia, dois alunos foram homenageados por serem aqueles que mais ficaram nos corredores da escola, ou seja, ganharam um “presentinho”, que não lembro o que era, por terem ficado em sala de aula menos tempo que os demais. (Pausa para que vocês possam aplaudi-los). Dentro do contexto destas linhas, não haveria necessidade de se homenagear ninguém, nem os alunos com as melhores notas ou mais participativos, mas muito menos aqueles que estavam na escola fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Agora eu volto a perguntar: essa minha filosofia é absurda? Como você acha que eu me senti nesse dia? Esse fato, ao contrário dos citados anteriormente, me deixou bem chateada. Já ficavam dando indiretas para minha mãe de que eu era muito quietinha (como se isso fosse um problema, já que meu desempenho escolar nunca ficou comprometido, e nem eu), e agora estavam premiando os desordeiros, do tipo, regras para o ano letivo: os alunos devem portar-se de forma adequada, respeitar as regras, estudar, participar das aulas que, ao final do ano, NÃO serão reconhecidos por isso. 

Agora é com vocês: quantas estranhezas puderam detectar aqui, além, é claro, daquela que vos escreve? 

O mundo é destoante, meu caro. NÃO acostume-se.

- IV -


E nos campos antigos me reconheço. Em cada frondosa árvore, no ouro do trigo.
Minha imagem nos lagos de cristal, meu olhar na vastidão do horizonte.
Lembro-me das colinas e do amanhecer, onde celebrávamos a benção de mais um dia.
Podia sentir cada irmão comigo, cada vida como uma só pelo bem de um povo.
Sentia no perfume das ervas e na firmeza das pedras a minha vocação.
Éramos livres.
Livres de verdade.
Uma liberdade condicionada apenas ao amor, pelo outro e por nosso lugar.
No frio fazíamos fogueiras e o calor nos adormecia ao luar.
Tínhamos em nós a essência mais pura e o dom da magia.
Ouvíamos a Natureza e nossa voz interior, como que conectados diretamente com o Universo.
No meio da floresta me reconheço, e toda a vez que olho para o céu.
O mesmo Sol que já aqueceu meu rosto e a mesma Lua para a qual já entoei cânticos.
Os Astros recordam-se de mim e a cada dia sinto que minha lembrança está mais vívida.
Passado forte e presente. Presente da vida, para mim.
A voz. O chamado. A Verdade. Hoje posso ouvir.
Ninguém foge do que realmente é. Mais cedo ou mais tarde o despertar acontece.
Vislumbres de algo que já fui e certamente ainda sou.
Uma Alma que sabe de onde veio e para onde, um dia, irá retornar.

- III -



Eu poderia andar com este livro o tempo todo.
Com este ou com muitos outros.
Sinto-me segura, confiante.
Como se alguém estivesse andando lado a lado comigo.
E de fato tem.
Cada palavra é uma amiga.
Mas a felicidade é indescritível
Cada história, uma vida.
Como se fizesse parte da minha.
E de fato faz.
Quantas pessoas conheci no silêncio desta conversa.
É como uma preciosidade, uma pequena semente.
Furacão e calmaria.
É o que meu coração deveras sabe.
Eu poderia andar com este livro o tempo todo.
E seria livre.