- XIII -

Hoje, existem remédios para espíritos livres, 
Correntes encapsuladas que te conformam, 
Que te obrigam a se encaixar em um mundo torto 
E a viver nele sem questionar, no piloto automático, 
Matando sua verdadeira essência aos poucos, 
Com lentas e dolorosas doses... 
Um, dois ou três comprimidos. 
Uma bola de neve, 
Que aumenta a cada dia e te sufoca. 
Porém, insanamente, você acredita estar bem, 
Ressocializado, dentro dos padrões. 
“Saudável” novamente...

O caminho da Bruxa


Em sonho um segredo a mim foi revelado, 
Vi-me dançando junto às fogueiras e à Lua, 
Em reverência à Grande Mãe. 
Livres, Bruxas, irmãs. 
Por muitos éramos vistas como serviçais das sombras, 
Sendo que, de fato, nossos ritos buscavam o equilíbrio. 
Avós, mães, filhas, netas... 
Unidas entre si e à Natureza. 
Senhoras das florestas, donas dos campos, 
Irmãs das ervas e amigas de todos os Seres. 
Apaixonadas, celebrávamos o prazer de estarmos vivas. 
Nosso sangue sagrado corria pelas veias e de volta à Terra, 
Em um ciclo divino de troca de energias. 
Sabíamos de nossa verdadeira essência, 
Dos poderes de cura e transformação. 
Um poder inato, feminino e ancestral, 
O dom da Deusa de Mil Faces, 
A Mãe de todas as Mães, 
Que está conosco em nossos dias, nossas rotinas, nossos filhos. 
Então acordei... E me reconheci, 
Reconheci a cada irmã! 
Ainda somos avós, mães, filhas, netas... 
Ainda somos Bruxas! 
Mesmo que pareça um elo perdido, ele nunca deixou de ser forte, 
Está em nosso corpo, nas intuições, na alma e no coração. 
Não reprima esta magia, deixe-a fluir... 
Abra sua mente e deixe o caminho da Bruxa 
Te conduzir...

- XII -


Hoje o meu refúgio é o mar, 
A areia sob os pés, 
A maresia em meu rosto 
E meu corpo banhado pela luz do Sol. 
O mistério das águas me chama, 
E o canto das sereias me faz caminhar... 
Deixo-me levar pelas ondas, 
Acarinhar pelas algas, 
E no contato com as pequenas conchas 
Percebo que não estou a sonhar. 
Um mundo novo e secreto 
Abre-se diante de mim 
E eu posso viajar sem medo 
Nesse mar de águas sem fim. 
As criaturas mais belas reluzem 
Refletindo agora o luar, 
Peixes estão ao meu lado, 
Quase os posso tocar. 
 Ao ouvir um som estranho 
Começo a despertar 
E não é que foi mesmo um sonho? 
Mas, se foi, que concha é essa, 
Em meu pé a machucar?

- XI -


Na verdade, não quero muito,
Apenas uma casinha na floresta
Não precisa ter tamanho, só aconchego.
Rodeada pelas árvores,
Caminho todas as manhãs,
Sentindo as folhas sob meus pés.
Cercada pelas brumas, cuido das plantas e dos animais. 
Não preciso de muito, 
Apenas de um riacho onde eu possa banhar minha alma, 
Sentar em uma pedra, com os pés na água e relaxar. 
Ouvir o canto dos pássaros, o farfalhar das árvores, 
O aroma da Natureza. 
Quero esquecer que perdemos o rumo 
E me reconectar... 
Deixar para trás o ego sombrio do material, 
Plantar o alimento, colher as ervas, fazer minha arte. 
Sentar à sombra de uma antiga árvore para ler, 
Correr pelos campos verdes com o vento em meu rosto. 
Respirar fundo o ar puro da liberdade. 
Descalça, sinto a Terra, 
 Curando-me, me deixando mais forte, 
Resgato meu poder ancestral a cada dia, 
Faço do verde o meu poder 
E, do azul do céu, meu manto protetor. 
Não estou pedindo muito, 
Só desejo a simplicidade, 
De algo único 
 Que encontramos em nós mesmos 
E no contato com a Mãe Natureza. 
Na verdade, só desejo entrar nesse sonho, 
E viver nele a real felicidade!

A figura da bruxa é atemporal



Se, por acaso, revivêssemos o período de caça às bruxas, você já se perguntou quem seria perseguido? Vou lhe dizer: muito provavelmente você, que está lendo estas palavras, nesta página, seria considerado suspeito de bruxaria. Louco, não é? Mas, infelizmente, foi uma realidade.

Muitas ideias, culturas, comportamentos, liberdades e conhecimentos foram duramente condenados, queimados em fogueiras alimentadas pelo desprezo, medo, injustiça e irracionalidade do ser humano.

Quem mais sofreu com isso? As mulheres. Detentoras de conhecimentos antigos, práticas de saúde e técnicas para amenizar as diversas dores do corpo e da alma, elas foram perseguidas e punidas, muitas vezes, unicamente, por serem mulheres.

O fato é que esse estigma ainda habita o inconsciente (é o consciente, em algumas situações) da sociedade, sendo uma sombra ancestral que persegue muitas formas de ser e de pensar.

É difícil extirpar algo tão antigo e arraigado. Por exemplo, se reconhecer e se assumir como bruxa, sem despertar olhares espantados ou sofrer um pré-julgamento (algumas pessoas irão te queimar na fogueira de suas mentes, sem nenhuma piedade, pode ter certeza!).

Porém, cada vez mais as pessoas buscam por seus espaços, sem se preocupar com a opinião dos outros. Esse é o caminho. Ninguém precisa consentir com suas coisas místicas, sua religião, sua sexualidade, sua cor, sua cultura, sua forma de pensar, até porque não se precisa de concordância, apenas de respeito.

Sinto-me representada pela figura da bruxa, pois é atemporal, e as causas com as quais ela se envolve são, muitas vezes polêmicas, mas sempre válidas. Ser bruxa é ter a consciência da perseguição, mas também a sabedoria e o conhecimento de causa, de que é preciso continuar na luta pelos direitos de todos e na prática de suas obrigações, que estão voltadas para: a Natureza, o bem do outro, a conexão com o Universo, a magia que nos rodeia e que vive em nosso interior e para o amor. 


- X -


Ah, se um dia a tua lama te fizer lótus
Saberás que venceu...
Não a batalha entre a luz e a escuridão,
Mas o difícil caminho do equilíbrio.
Ah, se um dia a tua lótus brilhar sobre a lama
Entenderás o simples propósito da alma,
Se purificar.
Se fores lótus em meio à lama,
Seu destino se cumprirá.
Lama vira alma.
Alma vira flor.
E transcenderá.
Quando em meio à lama existir amor,
Em lótus sagrada teu espírito florescerá.


- IX -

Eu sei que há dias que não são fáceis.
Sei das batalhas travadas dentro de ti e com o mundo. Sei, mas jamais poderia mensurar.
Sei que alguns dias você se sente só e acredita que ninguém se importa.
Reconheço seu esforço.
O que posso dizer é que as coisas se amenizam: a tristeza, a alegria.
Um dia de cada vez, não é assim que sempre dizem?
Sei que você pode voltar a ser o que sempre foi. Também estou tentando.
Que tal juntarmos nossas energias?
Um restinho da minha, um pouquinho da sua e os pequenos caquinhos podem se tornar um cristal iluminado.
Pois, com amor, até mesmo o cristal se refaz.

- VIII -


Como pode o céu ser o inferno de alguém.
Como pode a luz ser também escuridão.
Como pode você ser seu próprio barco afundando.
A falha ausência da presença.
O lixo dos pensamentos.
O esquecer-se da atenção.
Mendigo carinho ou sinto a falta?
Busco apenas aquietar meu coração.
Serei eu a falha da ausência da presença?
Ou apenas mais uma falta de gratidão.


O fruto do conhecimento


O cristianismo prega que Eva comeu o fruto proibido, entregue a ela por uma serpente, e depois levou Adão a comer também. Essa visão contribuiu para que a mulher fosse vista como inferior por muito tempo, e isso tem mudado a passos lentos.

Em tempos remotos, as mulheres eram tidas como sagradas, tinham poder e eram respeitadas. Como fontes geradoras de vida e sacerdotisas eram muito próximas à Deusa, reverenciada como a Grande Mãe dos povos. Coincidência ou não, a serpente era um dos símbolos da Deusa.

Para sufocar de vez a sabedoria e o poder feminino, as igrejas difundiram a ideia de que, por “culpa” de Eva, todos padecemos fora do Paraíso. De maneira figurada, o verdadeiro conhecimento foi banido, para evitar qualquer tipo de ameaça à nova religião e ao patriarcado.

Porém, esse poder foi apenas oprimido e viveu por séculos como uma chama nos recônditos de todas as almas femininas. Curandeiras, xamãs, benzedeiras, parteiras, terapeutas, mães, avós, filhas... Como bruxas, fomos perseguidas, torturadas e mortas, sob a bandeira de um Deus, que, tenho certeza, jamais concordaria com a atrocidade de uma inquisição.

Mesmo assim, o poder do sagrado feminino se manteve vivo e ele tem chamado, cada vez mais, por todas as mulheres que, em grupo ou solitárias, o tem resgatado. Não como uma afronta a qualquer religião, mas como um grito de liberdade e de igualdade.

Comemos o fruto sim, o fruto do conhecimento, que não deve ser negado a ninguém, e hoje estamos aqui para que se faça justiça às nossas antepassadas, que viveram com medo, reprimidas e amarguradas, aceitando destinos que lhes eram impostos, unicamente por serem mulheres.

Atente aos sinais! Aqueles poderes antigos estão dentro de você, não sinta medo, eles não são proibidos, são a nossa força mais verdadeira, nosso paraíso particular. É esse poder que irá lavar a nossa alma de todas as injustiças, sinta-o dentro de você e permita que se expanda, que extravase, que preencha o mundo e o teu próprio Ser.

Viscosidade


Parece que algo quebrou dentro de mim,
Esparramando um líquido negro que está entalado na minha garganta.
Ele escorre para o peito, deixando uma mancha de angústia
E eu não consigo fazer com que minha mente se afaste dessa viscosidade.
Por mais que eu repita para mim mesma, milhões de vezes, que nada de tão grave está acontecendo,
Ainda assim estou à beira do pânico.
Qualquer mínima alteração é um enorme gatilho:
O coração dispara, vem o suor, o medo, a boca seca e a vontade de chorar.
Eu, definitivamente, já não sei mais como lidar com isso,
Tento disfarçar para os outros e para mim mesma.
Mas lá no fundo há um vazio, um grande buraco. E ele pesa.
Tem épocas que ele está lá, quieto, enclausurado,
Dessa forma é mais fácil de levar.
O problema é quando esse buraco, que mesmo vazio, pesa,
Resolve deixar que seu líquido espalhe-se dentro de mim.
Nessas horas, eu já não sei mais o que fazer...

Editora Wish resgata tesouros em Contos de Fadas nórdicos

🧚‍♂️


Pessoal, esta editora é maravilhosa (adquiri com eles a trilogia Contos de Fadas em suas versões originais 💜) e tem livros únicos. Gostaria de compartilhar com vocês o mais novo projeto. Para saber como participar e garantir seu livro e/ou recompensas basta acessar www.catarse.me/contosnordicos, está tudo muito bem explicado pela Marina, a editora.
"Coleção Áurea irá reunir os melhores contos de fadas em livros temáticos
Após o sucesso da trilogia “Contos de Fadas em suas versões originais”, que já está em sua sexta edição, a Editora Wish anunciou nesta segunda-feira o novo projeto: “Coleção Áurea – Especial Contos de Fadas”, que tem como proposta reunir os melhores contos de fadas de cada cultura em livros ilustrados, começando pela cultura Nórdica.
Entre os contos selecionados, estão os já conhecidos “A Leste do Sol e Oeste da Lua” e “A noiva da Floresta”, mas a obra também traz títulos raros como o “A flor da Islândia”, “O monte élfico” e “A última morada dos gigantes”. O volume será composto por um total de 22 contos dos mais de 100 analisados pela Editora Wish; de Hans Andersen a Asbjørnsen, de Parker Fillmore a Helena Nyblom.
A campanha de financiamento coletivo de “Os melhores contos de fadas Nórdicos” tem início no dia 9 de agosto, e deve durar cerca de dois meses.
O link está aberto para visualização das recompensas através do www.catarse.me/contosnordicos, e começa a receber apoios na quinta-feira."

- VII -


Honre o que habita em seu interior. Não subestime a voz da alma.

Proteja-se quando você sentir esta necessidade. Sua intuição é um alerta.

Tenha em mente que seus erros e acertos fazem parte do processo evolutivo. Não seja tão rígido com você mesmo.

As energias ao seu redor irão te influenciar. Procure manter-se o mais preparado possível.

Você faz parte do Universo e o Universo está em você. Sintonize-se com ele.

Permita-se silenciar todas as vozes que o rodeiam. Medite e conecte-se com o Todo.

Se reconheça como parte importante na obra da Grande Mãe e do Deus Pai.

Seja grato pela oportunidade e por se permitir despertar.

- VI -



Em que primavera encontraste o Vale dos Deuses?
Em que primavera sorriste pela primeira vez?
Em que campos floridos pudeste andar confiante?
Sê então um retrato de cor,
A simples beleza a encantar.
O Vale Dourado que nunca esqueceste,
É dele que hoje te puseste a lembrar?
Em que canto escondido querem que cante?
Nos campos floridos te puseste a cantar?
Brilha cor, aquarela da vida.
Julga descente poder esperar?
Atenta para as flores, elas irão guiar...
O caminho do Vale retorna a encontrar.

"A"



Consciência, sentimento, um desejo reprimido, uma alma que veio a este mundo de forma diferente, para mudar a vida das pessoas com as quais têm contato, ou apenas nós mesmos, uma amostra de como somos volúveis?

O personagem principal do livro Todo dia (que se autodenomina “A”), escrito por David Levithan, acorda todos os dias em um corpo diferente, com a mesma idade que a sua, tendo acesso às memórias da outra pessoa, mas mantendo a própria consciência, podendo tomar decisões.

Habitando os mais variados corpos de adolescentes com 16 anos, “A” consegue nos mostrar como é viver um dia da vida de outra pessoa. O exemplo mais literal do “se colocar no lugar do outro”. Não vou resenhar a obra e nem tentar compreender a mensagem que o autor quis passar aos leitores, não é uma interpretação de texto.

Pensei em consciência, sentimento.

Mais ou menos na metade da história cogitei que o personagem expressasse os desejos reprimidos destes jovens. No dia da “invasão” eles fugiam de suas rotinas, faziam o que, no recôndito de suas mentes, sentiam vontade de fazer. Pode ser que seja isso mesmo, há tantas vontades sendo reprimidas, tantos “eus” escondidos por medo do julgamento que, se fosse possível, muitas pessoas gostariam de ser, pelo menos por um dia, elas mesmas com outra forma de pensar, com uma liberdade diferente. Ou um corpo capaz de ir além das barreiras que o dia-a-dia vai impondo.

Considero a possibilidade de “A” existir, como um Ser realizador de desejos, um Anjo investido de poder de mudança, um empurrãozinho do Destino ou um Bagunçador (não sei se essa palavra existe, mas gostei dela) de cabeças. Você e eu podemos ter tido um dia que parece em branco ou um borrão que lembramos apenas como um déjà vu.

Ou então, o personagem reflete como o ser humano é mutável em muitas das suas ideias e ações, de como algo, que até então era inviolável, pode ser descartado ao despertar pela manhã. Esse fator humano amedronta, mas também abre um mundo de possibilidades.

Leiam o livro, recomendo. É sempre bom analisar as perspectivas. É ainda mais importante se colocar no lugar do outro.

“A” tem muito para ensinar, é um personagem adorável. Deve ser porque ele reconhece as diferenças entre as pessoas, e sabe respeitá-las.



- V -


Ficar em casa. 
Ficar abraçado. 
Ficar conversando. 
Ficar lendo. 
Ficar em silêncio. 
Ficar assistindo. 
Ficar pensando. 
Não adianta apenas ir dormir, 
É necessário ficar dormindo. 
Não apenas ir viajar, 
Mas ficar feliz. 
Ficar observando. 
Ficar ouvindo. 
Ficar amando. 
Ficar cantando. 
Ficar escrevendo. 
Ficar.

Filosofia de rua

Imagem meramente ilustrativa
Fonte: http://pardevaso.com/ideias-para-o-pacote-de-presente/
Adorei, vale a pena conferir 👆
Há pouco menos de dois meses comprei um produto da China, via internet. No dia em que ele chegou, voltei para casa pensando em como algo vindo de tão longe, de uma cultura bem diferente, parou aqui, em uma cidadezinha que quase ninguém sabe que existe. Por quantas mãos meu pacote passou sem falar nos germes e quantas pessoas trabalharam, quem sabe em um ritmo frenético, para que meu pedido fosse atendido com êxito. Pensei em tudo isso.

Eu, que sou uma admiradora de outras culturas, me senti mais incluída recebendo um produto de tão longe, mesmo eles nem sabendo que eu existo. Quer dizer, eles sabem, meu nome estava no destinatário, mas aposto que eles não ficaram pensando, como eu, em quem iria receber. 

A teia que nos liga é mais intrincada do que podemos imaginar, nem temos muita consciência do nosso papel no efeito borboleta. Para que meu pacote chegasse intacto aqui, será que alguém lá na China teve um dia complicado? Espero que não, mas é uma possibilidade. 

Até o pacotinho viajou de avião e eu não. De fato, não estou interessada, mas pensei nisso também.

Filosofia de chuveiro


Uma situação bem comum nos tempos da escola é passar pelo constrangimento da escolha de times, nas aulas de educação física. Quem nunca passou por isso? Os dois melhores alunos de determinada modalidade ficavam um de cada lado montando sua seleção. Escolhe, escolhe, escolhe... Particularmente, eu sabia que seria uma das últimas, quando não era a última, com os dois torcendo abertamente internamente para que eu não fizesse parte do seu time. Muito bem, eu nunca me importei muito com isso, detestava educação física e tenho trauma até hoje dos ginásios de esportes. Enfim, eu aguardava pacientemente para ser escolhida e depois ia “jogar” (lê-se: correr de um lado para o outro do campo). 

Lembro-me de uma apresentação de dança, alusiva a alguma data comemorativa, onde os meninos foram enfileirados em frente à classe, enquanto as meninas ficaram sentadas para serem escolhidas pelos meninos. Hã? Como assim? É... Assim mesmo: o menino que estava em pé na frente da classe, dizia o nome da menina com a qual gostaria de dançar na apresentação. Confesso que isso me deixou ansiosa na época, não por medo de não ser escolhida, mas por algo que me pareceu errado naquilo tudo, mesmo eu tendo pouca idade (não lembro em qual série foi, exatamente). Pensei: - Nossa, vai demorar pra chamarem meu nome, isso se alguém chamar - tanto é que estava tão desligada que nem ouvi quando me chamaram (um pouco antes do que eu havia imaginado). O fato é que, eu, na infância, já conhecia as preferências, não dos meninos, mas da sociedade: comunicativas, divertidas, sociáveis... Agora você pode estar pensando que eu cresci e me tornei uma pessoa frustrada e estou escrevendo sobre isso e desqualificando boas características que as pessoas têm. Não é isso. Ser sociável é bom, mas não é tudo e, principalmente, não é a única maneira de viver. Seria importante que essa visão fosse aceita. (E olha, nem vou entrar na questão sexista da história, fica para uma próxima conversa, ou para os comentários). 

Eu sou uma das primeiras a ser escolhida, pois sou “melhor” em jogos de equipe. Eu sou uma das primeiras a ser escolhida porque me “destaco” perante as demais. Perceberam como isso é estranho? Perceberam que, certas “escolhas”, principalmente dentro de uma escola, soam de forma segregatória? Ou, não é nada disso e minha filosofia de chuveiro é completamente absurda e eu sou uma maluca? 

Em minha defesa, deixei a cereja do bolo para o final (acho que a cereja do bolo vai sempre no final, né?). Não gostaria de dar nome ao evento, para não pontuar demais o ocorrido e permitir que as pessoas liguem os fatos com datas, nomes e afins, porém, em um momento importante da minha vida escolar (lê-se: formatura do terceiro ano... ops, escapuliu!), durante a cerimônia, dois alunos foram homenageados por serem aqueles que mais ficaram nos corredores da escola, ou seja, ganharam um “presentinho”, que não lembro o que era, por terem ficado em sala de aula menos tempo que os demais. (Pausa para que vocês possam aplaudi-los). Dentro do contexto destas linhas, não haveria necessidade de se homenagear ninguém, nem os alunos com as melhores notas ou mais participativos, mas muito menos aqueles que estavam na escola fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Agora eu volto a perguntar: essa minha filosofia é absurda? Como você acha que eu me senti nesse dia? Esse fato, ao contrário dos citados anteriormente, me deixou bem chateada. Já ficavam dando indiretas para minha mãe de que eu era muito quietinha (como se isso fosse um problema, já que meu desempenho escolar nunca ficou comprometido, e nem eu), e agora estavam premiando os desordeiros, do tipo, regras para o ano letivo: os alunos devem portar-se de forma adequada, respeitar as regras, estudar, participar das aulas que, ao final do ano, NÃO serão reconhecidos por isso. 

Agora é com vocês: quantas estranhezas puderam detectar aqui, além, é claro, daquela que vos escreve? 

O mundo é destoante, meu caro. NÃO acostume-se.

- IV -


E nos campos antigos me reconheço. Em cada frondosa árvore, no ouro do trigo.
Minha imagem nos lagos de cristal, meu olhar na vastidão do horizonte.
Lembro-me das colinas e do amanhecer, onde celebrávamos a benção de mais um dia.
Podia sentir cada irmão comigo, cada vida como uma só pelo bem de um povo.
Sentia no perfume das ervas e na firmeza das pedras a minha vocação.
Éramos livres.
Livres de verdade.
Uma liberdade condicionada apenas ao amor, pelo outro e por nosso lugar.
No frio fazíamos fogueiras e o calor nos adormecia ao luar.
Tínhamos em nós a essência mais pura e o dom da magia.
Ouvíamos a Natureza e nossa voz interior, como que conectados diretamente com o Universo.
No meio da floresta me reconheço, e toda a vez que olho para o céu.
O mesmo Sol que já aqueceu meu rosto e a mesma Lua para a qual já entoei cânticos.
Os Astros recordam-se de mim e a cada dia sinto que minha lembrança está mais vívida.
Passado forte e presente. Presente da vida, para mim.
A voz. O chamado. A Verdade. Hoje posso ouvir.
Ninguém foge do que realmente é. Mais cedo ou mais tarde o despertar acontece.
Vislumbres de algo que já fui e certamente ainda sou.
Uma Alma que sabe de onde veio e para onde, um dia, irá retornar.

- III -



Eu poderia andar com este livro o tempo todo.
Com este ou com muitos outros.
Sinto-me segura, confiante.
Como se alguém estivesse andando lado a lado comigo.
E de fato tem.
Cada palavra é uma amiga.
Mas a felicidade é indescritível
Cada história, uma vida.
Como se fizesse parte da minha.
E de fato faz.
Quantas pessoas conheci no silêncio desta conversa.
É como uma preciosidade, uma pequena semente.
Furacão e calmaria.
É o que meu coração deveras sabe.
Eu poderia andar com este livro o tempo todo.
E seria livre.


Uma centelha minha se apagou com Juma




Um belo animal, não é? 

Belo para estar livre, correr pelas matas, caçar em seu habitat natural, beber água pura, sentir o Sol, dormir em paz... 

Descanse em paz, Juma! 

Hoje chorei por você! Chorei por todas as espécies que estão em extinção, inclusive por uma espécie de amor. 

Chorei, pois você não precisava estar ali. Tinha que ser preservada como uma joia preciosa. Toda vida é uma joia preciosa. 

Juma, você pagou pelas incoerências do nosso País. Um País que deveria estar preocupado com seu futuro e não com superficialidades. 

Chorei por ver tanto preconceito, injustiça, imoralidade, desonestidade, crueldade e desamor. Chorei por nossos hospitais, nossas crianças, nossos desamparados, nossas escolas, nosso planeta. 

Pra você, Juma, assim como para mim, essa tocha não significa nada! Sua vida, a vida do povo, a preservação da natureza, isso é o que verdadeiramente importa. 

Você foi submetida a um estresse totalmente desnecessário, jamais deveria ter sido exposta como um objeto e pagou com a vida por um crime que nem cometeu. Quantos de nós pagamos um preço alto demais? Quantos já pagaram com a vida? 

Juma, meu coração dói. Se você estava enjaulada para que sua espécie não desapareça é porque, no passado, algo muito errado aconteceu. Algo muito errado está acontecendo...

Não consigo olhar para sua foto sem sentir lágrimas em meus olhos. São tantas fotos, tantas lágrimas, tantos inocentes... De todas as espécies. 

Eu não estava presente no momento em que sua vida lhe foi tirada, não preciso julgar circunstâncias, o fato mais relevante nesta situação é que você, assim como a maioria dos brasileiros, foi usada e depois, descartada. 

Evento nenhum deve usar animais. País nenhum deve usar seu povo. A vida merece estar no mais alto patamar do respeito. Juma, você estaria ainda sentindo o Sol se não tivessem lhe colocado uma corrente, e se, antes, não lhe tivessem tirado o direito de ser livre. Não é o fato apenas, mas sim, as circunstâncias que levaram até ele. 

Estamos perdendo a nossa liberdade, não é SÓ um animal, são TODAS as vidas. Somos TODOS nós. Parece que, a cada minuto, uma centelha de alma se apaga (E a tocha segue acesa, desfilando pelo nosso País em frangalhos). Juma, nesta foto, não sabia que seriam seus últimos momentos, e você, o que você sabe? 

É difícil tolerar certos tipos de aglomerações e eventos, imagina um espírito livre nesta situação. O fervor de uma vida usado em prol da exaltação de um insignificante fogo simbólico? Quanta inversão de valores. Afinal, o que essa tocha está fazendo aqui?